Alemão:
Após fazer o reconhecimento de carro num domingão ensolarado, pois restava dúvida sobre quilometragem e altimetria, nos ‘jogamos’ nessa aventura que de certa forma serviu para oficializar o caminho como um clássico Papatrilhas, o Caminho das Serras. Idealizado para levar os dispostos por uma viajem que cobre as Serras do Mar, Serra do Quebra-Cangalha (acredite se quiser) e um pedaço da Serra da Bocaina, além da Estrada Real e a Pedra da Marcela em Cunha.
Especial pela logística e preparação, tivemos que ir uma dia antes em 4 carros com as 19 Bikes para Paraibuna, de lá seguimos à Paraty, onde deixamos os carros e voltamos de ônibus para nos encontrar com a galera que veio de Sampa, leiam o depoimento de nosso amigón PH
PH:
Minha primeira cicloviagem (que título mais gay, né?)
No último feriado prolongado do ano, aproveitei para realizar minha primeira cicloviagem, ou seja, fui de um lugar a outro, utilizando como combustível apenas as forças das minhas pernas. Cerca de 80% do caminho foram por estradas de terra, portanto, na verdade, foi como se eu tivesse feito uma grande trilha no final de semana. Mas, como diria Jack, vamos por partes:
Considerações gerais
Sempre pensei em como seria viajar de bike por aí. Bom, agora já sei: é duca! Diversão do começo ao fim. Pelo menos neste caso. O percurso foi muito bem escolhido, o tempo estava excelente e os companheiros de viagem ainda melhores, não tivemos nenhum contratempo que nos impedisse de continuar a viagem, enfim, deu tudo certo e, sinceramente, posso dizer que fui contaminado por mais esse vírus associado às bicicletas. Daqui pra frente, sempre que eu puder, pretendo botar as perninhas pra rodar por esse mundão.
É claro que nem tudo são rosas. O espinho principal é carregar os benditos alforjes. Nas subidas são pesos mortos arrastados morro acima (e eu, como um bom marinheiro de primeira viagem, claro que carreguei bem mais peso que os outros), nas descidas eles se transformam em “mecanismos de desestabilização automática de bicicletas”. Viajei o tempo todo tenso, pois a bike fica muito diferente. Qualquer movimento mais brusco deve ser evitado, pois o tempo de reação da magrela pesada é muito mais lento. Não dá pra confiar no reflexo, principalmente nas pirambas.
Mesmo assim, gostei bastante e pretendo voltar. Agora, creio que aprendi a lição e na próxima tenho certeza que meus alforjes estarão mais leves e o desempenho será bem melhor.
A bike
Por falar em desempenho, é claro que ele depende da bike. No meu caso, “desaposentei” minha Volare, que estava para vender. Rabo duro, v-brakes, mas bastou trocar os pneus e botar um bagageiro que foi e voltou na boa, suportando toda a minha inexperiência na hora de encher os alforjes.
Seu quadro já foi preto, laranja e agora está amarelo, mas fora um pneu dianteiro furado, ela não amarelou em nenhum trecho, apesar de ter sido bastante maltratada com o peso e os inúmeros solavancos do caminho.
As pessoas
Papatrilhas, esse é o grupo. Éramos em 20 e, assim como em Mauá, nada de estresse. Até rolaram algumas rusgas dessa vez, mas nada que virasse uma tragédia mexicana. Pelo contrário: o tempo todo dando risada, muita risada; falando bobagem, muita bobagem; tirando foto, muita foto, se ajudando, dividindo as experiências, comida, bebida, tralhas de bike, caronas; dando força para os cansados, esperando os mais lentos, enfim, realmente um pessoal do bem. Espero poder repetir a dose com eles muitas e muitas vezes ainda. Valeu pessoal!
O percurso
O escolhido foi Paraibuna (SP) – Paraty (RJ). No total foram 192 km pedalados. Obviamente, não foi um percurso aleatório. Foi feito todo um trabalho prévio de levantamento das trilhas, por carro, de modo a garantir o sucesso da empreitada, as reservas das pousadas também foram feitas antecipadamente, sem falar na logística de levar os carros até Paraty para a volta. Tudo foi muito bem orquestrado e conduzido pelo Alemão. Com isso, nosso trabalho foi apenas pedalar e curtir a viagem.
1º dia – Paraibuna – São Luis do Paraitinga – 83 km
Saímos do hotelzinho às 7h30. Os primeiros 45 km desse trecho eu já conhecia. Estive lá em janeiro (aliás, foi lá que fiz o primeiro contato com o Papatrilhas). A diferença é que o que fiz de carro naquela vez, agora fiz de bike. E claro, os benditos alforjes!
Esse primeiro trecho é bem bonito, vai margeando a represa até Natividade da Serra, do outro lado. Duas balsas pra chegar lá. De Natividade, cruzamos mais uma ponta de água com uma canoa e aí sim, tudo inédito. Só estradinha de terra, muita paisagem bacana e subidas, muitas subidas.
Uma em especial foi foda. Ainda não sei a quilometragem total daquela parede, mas posso garantir que é longa, bem longa. Na verdade, ela é toda pedalável, apenas com alguns trechos mais íngremes, mas graças aos alforjes que pareciam de chumbo ela ficou ainda pior. Cheguei no alto destruído. O campinho já tinha virado mingau. E o pior: na hora de descer, não dava pra soltar os cabos. Tome descer pianinho pra garantir a continuação da viajem. Que saudades da minha Jekyll!
Depois de cruzar esse morro, ainda andamos bastante até chegar ao asfalto que levava a SLP. Chegamos na pousada já à noite e aí foi a conta de tomar banho, comer e desmaiar. Estava só começando.
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2º dia – SLP – Cunha, via Lagoinha – 63 km
O segundo dia começou cedinho (quer dizer, era pra ter sido mais cedo ainda, mas aprontar 20 Papatrilhas não é uma tarefa fácil), mas como não tínhamos estresse de horário de balsa como no dia anterior, apenas às 9h00 começamos o pedal. Porém, de SLP a Lagoinha era tudo asfalto e o pedal rendeu bastante, apesar das puta paredes que encontramos no caminho. Em Lagoinha, pausa pra reabastecimento e tocamos pra Cunha. Dessa vez por terra.
Claro, tinha bastante subida também (muita), mas o que pegou mesmo foi o sol. Tava a pino. Um céu azul sem uma nuvenzinha pra contar a história e na terra, com raríssimas exceções, sem uma pontinha de sombra. Foi foda. Pra mim, o segundo dia foi o pior. Muito esforço, muito calor, suor, um piso pedregoso e ondulado que massacrou ainda mais o campinho. Não via a hora daquilo acabar e acabou. Chegamos a Cunha, destruídos, mas bem.
O engraçado é que entramos na cidade pedalando no plano. E eu pensando: “Ué, imaginei que aqui tinha muito morro”. Foi acabar o pensamento e apareceu uma parede enorme pra subir. E outra, e outra. Cunha é praticamente uma cidade dependurada no morro. Até pra andar você assa as batatas das pernas. Jantamos, fizemos uma horinha num boteco e cama. Há muito não dormia tão bem.
3º dia – Cunha – folga
O terceiro dia foi para lamber as feridas, passar pomada no campinho, mexer outros músculos, enfim, tirar bunda do selim. Aproveitamos então e alugamos uma vanzinha pra nos levar pra conhecer a Pedra da Marcela, que fica na divisa de entre SP e RJ.
São 1.800 metros de altura e lá de cima, em dias claros, você avista um mar de morros verdejantes de um lado e toda a baía de Paraty de outro. Maravilhoso. Paisagem realmente de cartão postal. A idéia era ir também para uma cachoeira, mas o motorista da van tinha horário e acabamos mesmo foi voltando para a cidade para um belo “almojanta”, um brigadeiro na doceria da pracinha e muita conversa fiada à noite na pousada.
A visita à pedra também foi bom para vislumbrar que nos aguardava em termos de percurso no dia seguinte.
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4º dia – Cunha – Paraty – 46 km
Era pra ter sido o dia mais tranqüilo da viagem. Quilometragem baixa, 90% do tempo no asfalto, mas não foi nada disso. Pelo contrário. Foi um perrengue, pois desse total, 24 km eram de subida, com uns trechinhos bem casca grossa em termos de inclinação. Na ida à pedra no dia anterior todos começaram a imaginar como seria pedalar aquilo tudo com os benditos alforjes e a tensão às 8h00, na hora da saída, era evidente.
Foi foda! Só rendeu porque era asfalto. Quando chegamos no alto todos comemoraram muito, pois apesar das paisagens lindíssimas na estrada, e de algumas descidas muito rápidas, os quatro dias de alforje pesado (especialmente no meu caso) começaram a cobrar o seu preço.
Daí pra frente era só descida até Paraty. Mais ou menos uns 15 km. Beleza, só alegria. Que nada! Os primeiros nove quilômetros são de terra, muita pedra solta, trechinhos molhados e com limo, buracos, crateras, algumas inclinações pesadas, carros subindo na contra-mão, poeira, e eu de rabo duro, v-brakes e dois alforjes batendo de um lado pro outro, desestabilizando completamente a bike.
Se eu estivesse com a Jekyll, teria sido a descida da minha vida. É uma piramba simplesmente sensacional. Só estando lá pra ver e sentir. Porém, nas condições que eu estava, foi muito legal, mas tenso e cansativo. Tanto que levamos quase duas horas pra descer tudo.
Tudo inclui um pedação de asfalto. Muita velocidade. Show! Pela primeira vez senti falta de uma cateye pra marcar a máxima. Avaliando o desempenho dos colegas, com certeza fiquei aí na casa entre 65 e 70 km morro abaixo. Com os alforjes bike acelera muito rápido. Lindo! Mas confesso que nessa hora tudo que eu queria era chegar a Paraty em segurança. E foi o que aconteceu.
Não só eu, mas todo o grupo cansado, mas feliz e com muita história pra contar.
domingo, 8 de junho de 2008
Caminho das Serras - cicloviagem
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