quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Socorro! Carnapedal 2008

Relato de Luciana Pinsky

- Qual a trilha que faremos no próximo sábado? – Essa pergunta veio do Sérgio às 7h20 de terça-feira de Carnaval enquanto tomávamos café da manhã no hotel Vergani e nos preparávamos para o rafting que faríamos às 8h. Isso mesmo: em plena terça gorda, dia nacional da esbórnia, estávamos lá, comportados, prontos de madrugada para chegar cedo para mergulhar nas águas geladas e barrentas do rio do Peixe.

E antes de continuar, vou dedicar algumas linha a esse “lá”: o hotel Vergani, construído na década de 1950, fica no coração da cidade de Socorro, a 130 quilômetros de São Paulo. O refeitório possui diversas mesas redondas, com toalhas cor rosa-choque, enfeitadas por flores de plástico com pingos de água e sustentadas – as flores – por pedrinhas pintadas de diversas cores. Há três mesas com diversos comes e mais duas nas quais os petiscos dividem lugar com fotos de crianças e convites de batizados.



Acabado o café, Sergio, Silvia, Caio (vulgo Sorinho, continue lendo e saberá o motivo), Michele, Edson e seu filho Lucas, German, Carol e eu fomos para o tal rafting. Metade da turma estava com roupas de pedal (já que ia molhar mesmo...). Uns e outros (eu inclusa) usavam até sapatilha. Depois de ouvir a explicação de Charlão – o nosso guia, cujo nome é Charles – fomos para água. Tivemos de nos dividir e Caio e Michele foram para outro bote. O sol não aparecia e até umas gotas ameaçavam tornar nosso passeio ainda mais molhado. Carolina assumiu o papel de megafone, pois Charlão, rouco, não se fazia ouvir em todo o bote. Era difícil não cair no riso ao ouvir:
- Frente
- Frente. Eu disse FRENTIIIIIIIIIIIIIIIIIIII
Ou:
- Parar
- Parar, segurar. Lu, fecha os olhos.
Pois Carol não se contentava em repetir as ordens de Charlão. Ela acrescentava o que achava de direito. E houve até quem dissesse que suas ordens eram tão eficientes que até os outros botes a obedeciam.
O rio estava cheio, o que tornou a descida das corredeiras interessante. Nada de atolar em pedras ou ter de empurrar o bote, como pode acontecer em períodos com águas mais amenas. Em compensação, o perigo de cair na água aumenta. Foi o que aconteceu na primeira corredeira com Michele, no outro barco. Nada grave: em menos de um minuto ela subiu de novo e voltou a remar. No grupo cascavel, o nosso, ninguém foi ao rio. Em compensação, tanto rio veio ao barco, que todos saíram encharcados.



E por que Cascavel? Era uma referência ao Pico da Cascavel, ponto alto da nossa trilha do dia anterior, segunda-feira. Mas antes de chegar lá, voltemos ao sábado, quando tudo começou.

Silvia e Sergio, Michele e Caio, Jurgen, Edson, German, William, Zelito, Carolina, Antoniela e eu completamos a trilha Socorro 3 do guia de trilhas n.5 de Guilherme Cavallari. É considerada a mais leve entre as três trilhas e tem 33 quilômetros, uma ascensão de 666 metros. A planilha e a descrição não assustam. Mas o detalhe é que o relógio marcava 11h de sábado, 2 de fevereiro, quando partimos da Igreja Matriz de Socorro. Um sol escaldante e pouca sombra tornou o “fácil” não tão fácil. Zelito havia trazido um casal de amigos que logo desistiu da empreitada. De fato, não havia subidas matadoras ou single tracks tecnicamente complicados, mas o excesso de sol e calor foi minando a força de alguns dos participantes. A começar por mim.



Depois de uma descida forte, senti minha bicicleta estranha e não estava conseguindo controlá-la bem. Achei que algum raio tivesse quebrado, mas foi simplesmente o pneu da frente que furou. Foi a primeira vez desde que tenho uma mountain bike – eu costumava rodar em São Paulo com uma Caloi 10 antes de 1995 – que meu pneu fura. Eu tinha uma câmara reserva, mas nada de ferramentas. E se sei teoricamente trocar um pneu, na prática nunca fiz. Então imaginem a cena: eu, sozinha, no meio de uma estrada de terra em que passam pouquíssimos carros (claro, pois a graça é pedalar onde há pouco movimento), debaixo de um sol de graus a mais do que consigo suportar, com o pneu furado. Pois bem, o fato é que eu não estava sozinha. E esse é, para mim, um dos grandes prazeres de pedalar: fazer isso em grupo. Passear por lugares lindos com gente que esteja no mesmo pique, que queria tanto conhecer aquele lugar quanto você e, claro, que compartilhe o amor ao pedal. Que, como todo amor, é irracional. Evidentemente que isso não justifica a minha ignorância do veículo que conduzo e que deveria – devo – dominar melhor. Enfim, Edson e Jürgen pararam em seguida para me ajudar. Pneu trocado, seguimos adiante.



A paisagem é basicamente rural, fazendinhas, algum verde e muito horizonte. No km 20 aproximadamente, uma parada providencial: sombra e água fresca. Alguns praticamente tomaram um banho. Outros apenas sentaram e fizeram um lanchinho básico.



Continuamos e, finalmente, cerca de 14h30 chegamos na Matriz. A maior parte do grupo seguiu para o hotel, seco por um banho de piscina. William, Carol e eu, secos por algo gelado, ficamos no Açaí, na praça da igreja. Depois do refresco, partimos nós também para o hotel. Fomos para a piscina. De fora, ela é um navio. Sim, um navio. Para ser precisa a proa de um navio que parece entrar na rua Carlos Norberto, umas das mais importantes de SOCORRO!!!! E lá fomos nós, Willian, Carol e eu nos juntar com o resto do grupo. Descemos no tobogã, rimos, nadamos, curtimos, sol, sombra. Lá por 16h, parte da turma sai para tomar um lanche. E vai parar no hospital.



Sim, foram no mesmo Açaí já citado anteriormente. Um pede açaí, outro sanduíche, suco etc. Caio, porém, não consegue nem beber seu isotônico e fica branco, deita no chão da lanchonete e vomita. Preocupados, os companheiros o levam para o hospital. Diagnóstico: insolação. Tratamento: soro na veia. A partir daí, Caio virou Sorinho.

Não vou contar do Carnaval noturno e nem do rodízio de pizza do sabadão à noite, mas apenas cito aqui o carro “As feinéticas” que reunia homens vestidas de mulheres “sambando” ao som de “Eu sei que eu sou / bonita e gostosa / Eu sei que você / Me olha e me quer”.



Domingão era dia de Parque dos Sonhos. Zelito, William foram embora. Sueli e Lucas (a mulher e o filho do Edson) se juntaram ao grupo. O sol de sábado deu lugar a um dia nublado e não tão quente quanto o anterior. Como chovera muito à noite, o rio estava muito cheio e todas as atividades aquáticas estavam suspensas. E suspensos estiveram os que se arriscaram nas tirolesas do Pânico e do Calafrio. Na verdade, quase todos foram, com exceção de Sergio e Edson, que não são lá muito fãs de ar. Na primeira vez no Pânico, Sueli e Lucas preferiram não se arriscar. Mas depois pegaram gosto pela coisa - na tal do Calafrio, que na verdade, é composta por duas tirolesas, sendo a primeira bem rápida - e ainda houve uma segunda rodada de Pânico.



- Ei, gente, Sueli e Lucas não foram no Pânico, vocês têm de ir, é a mais legal. Vamos, vamos!!! Eu vou com vocês.
Essa sou eu falando... quarenta segundos pendurada por dois fios no alto pode ser a sensação da glória, o vôo, o frio na barriga, as pernas bambas. A possibilidade da morte, seguida pela certeza e reforço da vida. A caminhada até a saída do Pânico era de cerca de 20 minutos. Na segunda rodada, Sueli, Lucas, Sorinho e Michele, foram de carro, e Jürgen e eu repetimos a trilha à pé. Depois de um dia inteiro no parque, à noite foi regada, novamente a rodízio de pizza.



O combinado era acordar cedíssimo na segunda, pois queríamos fugir do sol inclemente. Pretendíamos sair às 8h30. Mas só conseguimos cerca de meia hora depois. Zelito e Paulo Henrique chegaram de São Paulo no horário combinado. A turma do hotel é que se atrasou um pouco. E hoje a trilha era mais complicada. Apesar da distância até mais curta (30 quilômetros), a ascensão seria de 900 metros. Além disso, enfrentaríamos – saberíamos depois – um trecho enlameado de descida, com muitos buracos e desnível, praticamente um single track em que muitas vezes era necessário sair da bicicleta em plena descida.
Os primeiros seis quilômetros eram relativamente tranqüilos. O trecho mais íngreme viria em seguida, com seis quilômetros de subida, subida e subida até o já citado Pico da Cascavel, um lugar em que há uma rampa para asa delta. E como ninguém voa de asa delta de lugares baixos, dá para imaginar o quanto tivemos de subir para chegar no tal pico, não? Mas o sol mais camarada, o descanso do dia anterior, e o soro tomado pelos nosso companheiro Caio fez maravilhas. Cedo ou tarde, todos chegaram bastante bem no tal pico. Já a descida... Edson alertou:
- Ei, já temos um Sorinho no grupo. Vamos evitar o Gessinho...
Carol caiu, Jürgen também. Apesar das quedas não terem sido graves, Jürgen preferiu voltar para São Paulo ainda na segunda-feira para dormir na sua própria cama.



A lama da descida, a sapatilha que não se encaixa no pedal, o freio que fica barulhento e enche de terra... (bom, isso para aqueles que têm sapatilha sem ser egg bitter e freio que não é a disco, no meu caso, cantilever) nada disso tiraram a graça do passeio. Ou, talvez, isso tenha dado mais sabor de conquista quando voltamos à igreja Matriz, doidos por um açaí. Ao chegar no asfalto e cruzar o pequeno túnel da cidade lembrei-me de alguns meses antes, quando cruzei o túnel de Santos depois de pedalar desde minha casa em São Paulo. E o mesmo arrepio que senti lá, voltei a sentir aqui. O arrepio que explica porque vale carregar uma bicicleta e demais trambolhos que a acompanham em uma viagem semelhante (camelbak, caramanhola, capacete, óculos, bermuda reforçada, camiseta dry fit, luvas etc etc etc). O arrepio e um leve molhar de olhos que não costuma se completar em lágrima, mas é o suficiente para deixar-me calada, distante e próxima, como se o mundo inteiro se concentrasse naqueles pedais.



Hotel, piscina, tobogã, braçadas, fomos nós para um rodízio, mas dessa vez de carne. Depois de muito cupim, picanha, frango, macarrão alho e óleo e abacaxi na brasa com canela, voltamos para nosso colorido hotel. Alguns ainda arriscaram uma sinuca – Silvia e German foram os campeões invictos – e depois pularam o último dia de Carnaval. Eu, sonolenta, fui dormir para acordar às 7 horas para não me atrasar para o rafting de terça.

10 comentários:

Rodolpho disse...

será que a Carol gritou nas descidinhas do rafting?

Rodolpho disse...

ah, um recado à Lu Pinsky: furou o pneu e não tinha ferramentas para trocar? como assim??? e o mega, ultra jogo de ferramentas que eu te dei de presente de amigo secreto?!
sinto informar-lhe, mas seu nome agora consta no meu caderninho de "pessoas para zoar na trilha". em primeiro lugar: Nisa, que não usa mais pedal de clip... agora Lu Pinsky, que ganha ferramentas e as deixa em casa. show!! me aguarde!

German disse...

Eh Rodolpho, nós eramos o unico bote com sirene!!!! rsrsrssr

De pessoas q nao podemos deixar de alfinetar, tem tbem a bella atropela q tem freios e nao os usa!!! :)
Tem luvas e usa um só lado, tipo Michael JAckson: bad is bad!

Foi um show este passeio. Mais uma vez nos divertimos muito nao apenas nos pedais, mas com todo o que envolvia o preparativo, hospedagem num local suuuper diferente, toboga, esportes radicais paralelos. Enfim, demais!

abs
German

luciana disse...

Então Rodolpho... as ferramentas eu não levei porque sabia que o povo tinha. Perguntei antes... Mas eu já levei das outras vezes. Lá em Santa Isabel eu tava com elas, viu? E também em Paraibuna. Agora... saber usar, isso ainda não sei.

luciana disse...
Esta postagem foi removida pelo autor.
Rodolpho disse...

legal Lu! entendi tudo!

Bella disse...

German, você é uma comédia, anda inventando fatos. Dessa vez eu freei direito, não cai e não atropelei ninguém! Quanto a luva eu mereço um desconto, terminei de fazer minha mudança e o salvador zelito foi um gentleman e me emprestou a dele. German só para eu não esquecer, como é mesmo o nome do curso que você me falou que vai fazer? rsrs. Galera amei tudo. Lu o texto está perfeito, não faltou nenhum detalhe, adorei!!! German obrigada pela foto..ficou linda! Bjs

Renato Wang disse...

po galera, que show hein, rodizio de pizza, de carne... meu, se soubesse, teria ido a qlqr custo. hauhauha

Carol disse...

Lu, PARABÉNS..PARABÉNS!!! Ficou um espetáculo, dá vontade de reler milhões de vezes.
Germanitooooo, "sirene" q fez toda a diferença, viu!!! o INGRATO....hahahahahahaha (mais um tema para ser trabalhado)hahahaha!!
Rudolphsssss, não deu nem para ficar rouca....hahahahhahahha

PS: Essa viagem foi excepcional!!! Enxergamos além das diferenças do outro e encontramos a maneira de trilharmos juntos.
Obrigado à todos!!! bjs Carol.

Sergião disse...

Foi sensacional tudo e todos. Obrigado por estar com vocês nesse feriado