Relato de Luciana Pinsky
- Qual a trilha que faremos no próximo sábado? – Essa pergunta veio do Sérgio às 7h20 de terça-feira de Carnaval enquanto tomávamos café da manhã no hotel Vergani e nos preparávamos para o rafting que faríamos às 8h. Isso mesmo: em plena terça gorda, dia nacional da esbórnia, estávamos lá, comportados, prontos de madrugada para chegar cedo para mergulhar nas águas geladas e barrentas do rio do Peixe.
E antes de continuar, vou dedicar algumas linha a esse “lá”: o hotel Vergani, construído na década de 1950, fica no coração da cidade de Socorro, a 130 quilômetros de São Paulo. O refeitório possui diversas mesas redondas, com toalhas cor rosa-choque, enfeitadas por flores de plástico com pingos de água e sustentadas – as flores – por pedrinhas pintadas de diversas cores. Há três mesas com diversos comes e mais duas nas quais os petiscos dividem lugar com fotos de crianças e convites de batizados.
Acabado o café, Sergio, Silvia, Caio (vulgo Sorinho, continue lendo e saberá o motivo), Michele, Edson e seu filho Lucas, German, Carol e eu fomos para o tal rafting. Metade da turma estava com roupas de pedal (já que ia molhar mesmo...). Uns e outros (eu inclusa) usavam até sapatilha. Depois de ouvir a explicação de Charlão – o nosso guia, cujo nome é Charles – fomos para água. Tivemos de nos dividir e Caio e Michele foram para outro bote. O sol não aparecia e até umas gotas ameaçavam tornar nosso passeio ainda mais molhado. Carolina assumiu o papel de megafone, pois Charlão, rouco, não se fazia ouvir em todo o bote. Era difícil não cair no riso ao ouvir:
- Frente
- Frente. Eu disse FRENTIIIIIIIIIIIIIIIIIIII
Ou:
- Parar
- Parar, segurar. Lu, fecha os olhos.
Pois Carol não se contentava em repetir as ordens de Charlão. Ela acrescentava o que achava de direito. E houve até quem dissesse que suas ordens eram tão eficientes que até os outros botes a obedeciam.
O rio estava cheio, o que tornou a descida das corredeiras interessante. Nada de atolar em pedras ou ter de empurrar o bote, como pode acontecer em períodos com águas mais amenas. Em compensação, o perigo de cair na água aumenta. Foi o que aconteceu na primeira corredeira com Michele, no outro barco. Nada grave: em menos de um minuto ela subiu de novo e voltou a remar. No grupo cascavel, o nosso, ninguém foi ao rio. Em compensação, tanto rio veio ao barco, que todos saíram encharcados.
E por que Cascavel? Era uma referência ao Pico da Cascavel, ponto alto da nossa trilha do dia anterior, segunda-feira. Mas antes de chegar lá, voltemos ao sábado, quando tudo começou.
Silvia e Sergio, Michele e Caio, Jurgen, Edson, German, William, Zelito, Carolina, Antoniela e eu completamos a trilha Socorro 3 do guia de trilhas n.5 de Guilherme Cavallari. É considerada a mais leve entre as três trilhas e tem 33 quilômetros, uma ascensão de 666 metros. A planilha e a descrição não assustam. Mas o detalhe é que o relógio marcava 11h de sábado, 2 de fevereiro, quando partimos da Igreja Matriz de Socorro. Um sol escaldante e pouca sombra tornou o “fácil” não tão fácil. Zelito havia trazido um casal de amigos que logo desistiu da empreitada. De fato, não havia subidas matadoras ou single tracks tecnicamente complicados, mas o excesso de sol e calor foi minando a força de alguns dos participantes. A começar por mim.
Depois de uma descida forte, senti minha bicicleta estranha e não estava conseguindo controlá-la bem. Achei que algum raio tivesse quebrado, mas foi simplesmente o pneu da frente que furou. Foi a primeira vez desde que tenho uma mountain bike – eu costumava rodar em São Paulo com uma Caloi 10 antes de 1995 – que meu pneu fura. Eu tinha uma câmara reserva, mas nada de ferramentas. E se sei teoricamente trocar um pneu, na prática nunca fiz. Então imaginem a cena: eu, sozinha, no meio de uma estrada de terra em que passam pouquíssimos carros (claro, pois a graça é pedalar onde há pouco movimento), debaixo de um sol de graus a mais do que consigo suportar, com o pneu furado. Pois bem, o fato é que eu não estava sozinha. E esse é, para mim, um dos grandes prazeres de pedalar: fazer isso em grupo. Passear por lugares lindos com gente que esteja no mesmo pique, que queria tanto conhecer aquele lugar quanto você e, claro, que compartilhe o amor ao pedal. Que, como todo amor, é irracional. Evidentemente que isso não justifica a minha ignorância do veículo que conduzo e que deveria – devo – dominar melhor. Enfim, Edson e Jürgen pararam em seguida para me ajudar. Pneu trocado, seguimos adiante.
A paisagem é basicamente rural, fazendinhas, algum verde e muito horizonte. No km 20 aproximadamente, uma parada providencial: sombra e água fresca. Alguns praticamente tomaram um banho. Outros apenas sentaram e fizeram um lanchinho básico.
Continuamos e, finalmente, cerca de 14h30 chegamos na Matriz. A maior parte do grupo seguiu para o hotel, seco por um banho de piscina. William, Carol e eu, secos por algo gelado, ficamos no Açaí, na praça da igreja. Depois do refresco, partimos nós também para o hotel. Fomos para a piscina. De fora, ela é um navio. Sim, um navio. Para ser precisa a proa de um navio que parece entrar na rua Carlos Norberto, umas das mais importantes de SOCORRO!!!! E lá fomos nós, Willian, Carol e eu nos juntar com o resto do grupo. Descemos no tobogã, rimos, nadamos, curtimos, sol, sombra. Lá por 16h, parte da turma sai para tomar um lanche. E vai parar no hospital.
Sim, foram no mesmo Açaí já citado anteriormente. Um pede açaí, outro sanduíche, suco etc. Caio, porém, não consegue nem beber seu isotônico e fica branco, deita no chão da lanchonete e vomita. Preocupados, os companheiros o levam para o hospital. Diagnóstico: insolação. Tratamento: soro na veia. A partir daí, Caio virou Sorinho.
Não vou contar do Carnaval noturno e nem do rodízio de pizza do sabadão à noite, mas apenas cito aqui o carro “As feinéticas” que reunia homens vestidas de mulheres “sambando” ao som de “Eu sei que eu sou / bonita e gostosa / Eu sei que você / Me olha e me quer”.
Domingão era dia de Parque dos Sonhos. Zelito, William foram embora. Sueli e Lucas (a mulher e o filho do Edson) se juntaram ao grupo. O sol de sábado deu lugar a um dia nublado e não tão quente quanto o anterior. Como chovera muito à noite, o rio estava muito cheio e todas as atividades aquáticas estavam suspensas. E suspensos estiveram os que se arriscaram nas tirolesas do Pânico e do Calafrio. Na verdade, quase todos foram, com exceção de Sergio e Edson, que não são lá muito fãs de ar. Na primeira vez no Pânico, Sueli e Lucas preferiram não se arriscar. Mas depois pegaram gosto pela coisa - na tal do Calafrio, que na verdade, é composta por duas tirolesas, sendo a primeira bem rápida - e ainda houve uma segunda rodada de Pânico.
- Ei, gente, Sueli e Lucas não foram no Pânico, vocês têm de ir, é a mais legal. Vamos, vamos!!! Eu vou com vocês.
Essa sou eu falando... quarenta segundos pendurada por dois fios no alto pode ser a sensação da glória, o vôo, o frio na barriga, as pernas bambas. A possibilidade da morte, seguida pela certeza e reforço da vida. A caminhada até a saída do Pânico era de cerca de 20 minutos. Na segunda rodada, Sueli, Lucas, Sorinho e Michele, foram de carro, e Jürgen e eu repetimos a trilha à pé. Depois de um dia inteiro no parque, à noite foi regada, novamente a rodízio de pizza.
O combinado era acordar cedíssimo na segunda, pois queríamos fugir do sol inclemente. Pretendíamos sair às 8h30. Mas só conseguimos cerca de meia hora depois. Zelito e Paulo Henrique chegaram de São Paulo no horário combinado. A turma do hotel é que se atrasou um pouco. E hoje a trilha era mais complicada. Apesar da distância até mais curta (30 quilômetros), a ascensão seria de 900 metros. Além disso, enfrentaríamos – saberíamos depois – um trecho enlameado de descida, com muitos buracos e desnível, praticamente um single track em que muitas vezes era necessário sair da bicicleta em plena descida.
Os primeiros seis quilômetros eram relativamente tranqüilos. O trecho mais íngreme viria em seguida, com seis quilômetros de subida, subida e subida até o já citado Pico da Cascavel, um lugar em que há uma rampa para asa delta. E como ninguém voa de asa delta de lugares baixos, dá para imaginar o quanto tivemos de subir para chegar no tal pico, não? Mas o sol mais camarada, o descanso do dia anterior, e o soro tomado pelos nosso companheiro Caio fez maravilhas. Cedo ou tarde, todos chegaram bastante bem no tal pico. Já a descida... Edson alertou:
- Ei, já temos um Sorinho no grupo. Vamos evitar o Gessinho...
Carol caiu, Jürgen também. Apesar das quedas não terem sido graves, Jürgen preferiu voltar para São Paulo ainda na segunda-feira para dormir na sua própria cama.
A lama da descida, a sapatilha que não se encaixa no pedal, o freio que fica barulhento e enche de terra... (bom, isso para aqueles que têm sapatilha sem ser egg bitter e freio que não é a disco, no meu caso, cantilever) nada disso tiraram a graça do passeio. Ou, talvez, isso tenha dado mais sabor de conquista quando voltamos à igreja Matriz, doidos por um açaí. Ao chegar no asfalto e cruzar o pequeno túnel da cidade lembrei-me de alguns meses antes, quando cruzei o túnel de Santos depois de pedalar desde minha casa em São Paulo. E o mesmo arrepio que senti lá, voltei a sentir aqui. O arrepio que explica porque vale carregar uma bicicleta e demais trambolhos que a acompanham em uma viagem semelhante (camelbak, caramanhola, capacete, óculos, bermuda reforçada, camiseta dry fit, luvas etc etc etc). O arrepio e um leve molhar de olhos que não costuma se completar em lágrima, mas é o suficiente para deixar-me calada, distante e próxima, como se o mundo inteiro se concentrasse naqueles pedais.
Hotel, piscina, tobogã, braçadas, fomos nós para um rodízio, mas dessa vez de carne. Depois de muito cupim, picanha, frango, macarrão alho e óleo e abacaxi na brasa com canela, voltamos para nosso colorido hotel. Alguns ainda arriscaram uma sinuca – Silvia e German foram os campeões invictos – e depois pularam o último dia de Carnaval. Eu, sonolenta, fui dormir para acordar às 7 horas para não me atrasar para o rafting de terça.
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008
Socorro! Carnapedal 2008
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10 comentários:
será que a Carol gritou nas descidinhas do rafting?
ah, um recado à Lu Pinsky: furou o pneu e não tinha ferramentas para trocar? como assim??? e o mega, ultra jogo de ferramentas que eu te dei de presente de amigo secreto?!
sinto informar-lhe, mas seu nome agora consta no meu caderninho de "pessoas para zoar na trilha". em primeiro lugar: Nisa, que não usa mais pedal de clip... agora Lu Pinsky, que ganha ferramentas e as deixa em casa. show!! me aguarde!
Eh Rodolpho, nós eramos o unico bote com sirene!!!! rsrsrssr
De pessoas q nao podemos deixar de alfinetar, tem tbem a bella atropela q tem freios e nao os usa!!! :)
Tem luvas e usa um só lado, tipo Michael JAckson: bad is bad!
Foi um show este passeio. Mais uma vez nos divertimos muito nao apenas nos pedais, mas com todo o que envolvia o preparativo, hospedagem num local suuuper diferente, toboga, esportes radicais paralelos. Enfim, demais!
abs
German
Então Rodolpho... as ferramentas eu não levei porque sabia que o povo tinha. Perguntei antes... Mas eu já levei das outras vezes. Lá em Santa Isabel eu tava com elas, viu? E também em Paraibuna. Agora... saber usar, isso ainda não sei.
legal Lu! entendi tudo!
German, você é uma comédia, anda inventando fatos. Dessa vez eu freei direito, não cai e não atropelei ninguém! Quanto a luva eu mereço um desconto, terminei de fazer minha mudança e o salvador zelito foi um gentleman e me emprestou a dele. German só para eu não esquecer, como é mesmo o nome do curso que você me falou que vai fazer? rsrs. Galera amei tudo. Lu o texto está perfeito, não faltou nenhum detalhe, adorei!!! German obrigada pela foto..ficou linda! Bjs
po galera, que show hein, rodizio de pizza, de carne... meu, se soubesse, teria ido a qlqr custo. hauhauha
Lu, PARABÉNS..PARABÉNS!!! Ficou um espetáculo, dá vontade de reler milhões de vezes.
Germanitooooo, "sirene" q fez toda a diferença, viu!!! o INGRATO....hahahahahahaha (mais um tema para ser trabalhado)hahahaha!!
Rudolphsssss, não deu nem para ficar rouca....hahahahhahahha
PS: Essa viagem foi excepcional!!! Enxergamos além das diferenças do outro e encontramos a maneira de trilharmos juntos.
Obrigado à todos!!! bjs Carol.
Foi sensacional tudo e todos. Obrigado por estar com vocês nesse feriado
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